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30 janeiro, 2011

The Illusion of Life: Disney Animation


Depois de algum tempo resolvi resgatar este livro da estante e parar de apenas tê-lo como referência visual momentânea, para realmente ler, minuciosamente, o que Ollie Johnston, Frank Thomas magnificamente nos deixaram de referência: The Illusion of Life: Disney Animation
The Illusion of Life, cuja primeira publicação de 1981, é amplamente considerado um dos livros mais importantes já escritos sobre animação e um dos melhores livros de animação considerado pela AWN - Animation World Network.
The Illusion of Life: Disney Animation não deixa de ser uma importante referência a nós animadores sobre animação profissional e o verdadeiro significado da animação, que é a vida em movimento, não só o movimento das coisas.

Para compartilhar, mesmo sugerindo que o comprem, deixo o link de download em PDF do livro. Tenham muitas horas de admiração nessas páginas!



24 janeiro, 2011

Cartier Bresson: O Século Moderno

 
Até o ano passado acreditava-se que pouca coisa ficou para falar sobre o fotógrafo Henri Cartier-Bresson (1908 – 2004). O nome já quase tudo para os profissionais de imagem, pois ele foi ninguém menos que um dos maiores fotógrafos do século 20. Mas o pai do fotojornalismo ainda tem muito a mostrar a mundo e a prova disto foi a revisão recente do seu acervo de fotos e negativos, propiciando o lançamento do livro Cartier Bresson: O Século Moderno, que chega às livrarias pela Cosac Naify
Sobre Bresson são mais de 40 livros publicados, sem contar os que tratam da obra do fotojornalista indiretamente como releituras, ensaios, resenhas e análises de mestrado e doutorado em diversas universidades do mundo. Mas talvez nenhum tenha proposto uma análise tão profunda como ‘O século moderno’, cujo autor é o curador chefe do MoMA (Museum of modern art – de Nova York) e maior estudioso da obra do fotografo, Peter Galassi.
Galassi foi curador e responsável pela última exposição realizada sobre Bresson, realizada em maio/junho deste ano no MoMA, a exposição mais bem sucedida dos últimos 20 anos no Museu. Do estudo para tal evento surgiu a idéia do livro. Para inveja de muitos, primeira vez um pesquisador teve acesso livre ao acervo pessoal do artista sem a interferência de parentes, conseguindo reunir negativos de fotos famosas e imagens inéditas de diferentes eventos com cobertura fotográfica do profissinal. São mais de 60 anos de trabalho reunidos em mais de quinhentas fotos.
“Uma das atrações da obra, além da lista completa de seus registros, é mostrar o layout de como foram publicadas, então você pode já conhecer a foto mas não sabia como tinha saído nas revistas da época. Tem a capa dessas publicações e o conteúdo das páginas, como um fac-símile de quando foram publicadas pela primeira vez”, conta Cassiano Elek Machado, Editor da Cosac Naify, no lançamento do livro, em São Paulo, na casa da editora.
A publicação faz um passeio por toda a carreira de Bresson, começando nos anos 1930, início de sua carreira, quando ele tinha atuação próxima a dos surrealistas e fazia fotos absolutamente inovadoras, até sua trajetória como fotojornalista. A obra é dividida em sessões, correspondente a eventos e fases do fotógrafo, mas uma merece destaque: “Pontos de Referência”, apresentando pela primeira vez ao mundo os roteiros das viagens de Cartier-Bresson para expedições fotográficas.
Mitos e verdades
A obra deve atrair não apenas fotógrafos, mas curiosos sobre o acervo e biografia de um dos maiores fotógrafos de todos os tempos. Sua biografia pode ser considerada uma das mais estudadas e revisadas no mundo da imagem. Boatos rolam aos montes sobre um fotógrafo misterioso, com um dom sobrenatural de apertar o botão do obturador e nunca ter editado uma foto.
“Por mais poético que possa ser, ‘nunca ter editado uma foto acredito’ é uma dádiva que nenhum fotografo conseguiu no mundo, mesmo Bresson. Mesmo mínimo, houve ajustes”, comenta o fotojornalista pernambucano Ivan Alecrim. “Vale ressaltar que na hora de compor uma foto já estamos editando, e isso ele fazia muito bem”, complementa o profissional.
Segundo o autor de O Século Moderno, Henri editava bastante suas imagens na mesa de luz. “Pude estudar negativos e ampliações bastante retocadas, bem diferente das originais. Alguns são pequenos retoques como eliminar pessoas através do crop, mas o mito que eram imagens únicas e intocadas infelizmente não existe”, explica Peter Galassi na coletiva de imprensa de lançamento do livro.
Uma novidade em seu acervo é o trabalho com recortes, fragmentos. A partir dos retratos que fazia, em alguns casos, pegava uma parte deste retrato e ampliava, fazendo uma nova foto. “Pode-se descobrir que ele editava através da folha de contato, ou seja, todas as imagens que ele fez para chegar em uma imagem”, esclarece Galassi.
Aversão social
O ângulo em que se fotografa pode dizer muito sobre o profissional. No caso do mestre do fotojornalismo, suas fotos mostram-no como observador passivo, sem interferir na cena. Um transeunte, mas atento. Seu ângulo e presença imperceptíveis no cenário criou o mito de uma forte ‘misantropia’, uma aversão ao humano e o meio social em geral. “Se fosse misantropo, ele teria vivido na profissão errada, não? Pois seus retratos são basicamente retratos interagindo com o meio”, comenta o fotógrafo social Pablo Correia, admirador e estudioso da obra de Bresson.
Mas seria Bresson apenas fotojornalista? Descobrimos em O Século Moderno que não, Bresson fez trabalhos como feelancer para empresas como automóveis e tintas, imóveis, entre outras. ‘O Século Moderno’ traz alguns desses trabalhos publicados, incluindo moda e anúncios publicitários.
Algumas questões ainda não tem resposta, mas nada tira a magia da escolha perfeita de enquadramento e dramaticidade da obra de Bresson. Talvez um dia ainda se encontre uma caixa secreta com mais negativos ou um diário explicando o porque de ser fotojornalismo e não moda.

Texto: Lidianne Andrade
Da Revista O Grito!, em São Paulo

12 janeiro, 2011

Cartier-Bresson: O Olhar do Século


 Você com certeza já deve ter visto algumas dessas imagens: Sartre na Pont des Arts, Gandhi, um casal se beijando em Paris, um garoto sorridente carregando duas garrafas de vinho na Rue Mouffetard, o rosto trágico de Edith Piaf. São de Henri Cartier-Bresson (1908-2004), sinônimo de fotografia no século 20. Contra sua vontade, ele fundou uma escola e um estilo. A teoria do "instante decisivo", a opção pelo preto-e-branco, a Leica, a recusa ao uso do flash - tudo isso constituiu uma mitologia em torno do homem que elevou a fotografia à condição de arte (teve exposições em Nova York e no Louvre num tempo em que a fotografia era considerada apenas registro técnico). Ao mesmo tempo, com Robert Capa, fundou o fotojornalismo. Virou ícone e mito mas fez questão de manter sua vida pessoal numa zona de sombra. Seu biógrafo Pierre Assouline tenta levantar o véu de mistério que cerca esse personagem em Cartier-Bresson - O Olhar do Século, que sai agora pela L&PM (tradução de Julia da Rosa Simões, 352 págs.).
Assouline não se contenta em fazer uma biografia convencional. Além de reconstruir a vida de Cartier-Bresson (designado, na França, pela sigla HCB), procura compreender seu processo de trabalho, entender o que faz de uma foto dele algo único, singular, inimitável. Assouline tem prática na coisa. Entre outros, já biografou personalidades como Georges Simenon, Gaston Gallimard e Hergé, o criador de Tintin. É jornalista cultural do Le Monde e mantém no ar o blog literário de maior sucesso em seu país (http://passouline.blog.lemonde.fr/), com milhares de acessos e centenas de comentários por dia. Certo, é na França, mas mesmo assim, invejável.
Compreensão implica entendimento do contexto. HCB vem de família rica. Essa contingência, independente da vontade do sujeito pois ninguém escolhe o berço em que nasce, pode conduzir à soberba, à indiferença ou a nada disso. Já a riqueza do jovem Henri fazia-o sentir culpa em relação às classes desfavorecidas. Menino, recortou do jornal L?Echo de Paris o artigo intitulado De Onde Vem o Dinheiro? e o pregou em cima do espelho, para vê-lo todas as manhãs. A culpa é elemento importante na motivação, ensinou Freud ("Não é a fé, é a culpa que remove montanhas", dizia).
Isso pode em parte explicar a escolha de temas, mas de onde vem a "estética" das fotos de HCB, sua incomparável noção de volume, os retratos famosos, instantâneos que parecem resumir toda uma vida dos fotografados? Nesse caso é preciso lembrar que a primeira vocação de Cartier-Bresson foi a pintura - ele ama Cézanne, em particular. Mas também a literatura, tendo Proust como guia de toda a vida. "São suas verdadeiras referências culturais", escreve Assouline. "São seus ?fotógrafos? de cabeceira." O jovem Henri cuida também da parte "técnica" e se matricula na escola de André Lothe, onde trabalha a pintura e, em especial, o desenho. Vai com regularidade ao Louvre e copia obras dos mestres. De Lothe apanha o "vírus" da geometria. Adota como seu o lema da Academia de Platão: "Quem não for geômetra, não entre."
O curioso é que, na composição da personalidade de HCB, o espírito de geometria tenha de se afinar com o que parece ser seu oposto - a convivência com Breton e Aragon, e portanto com o surrealismo, seu flerte com o inconsciente, o acaso e o desejo. Dessas exigências contrárias ele tira a síntese que seria a grande lição de Lothe: não existe liberdade sem disciplina. Na verdade, o que acontece nesses anos de formação é menos a aquisição de uma técnica ou o aprendizado de um ofício do que a formação de um olhar. Olhar que, por sua vez, encontra na flexibilidade de um aparelho fotográfico alemão o seu veículo perfeito. Esse é um dos casamentos do século: HCB e a sua Leica.
União que poderia ser menos fértil caso HCB fosse um artista de gabinete. Pelo contrário, ele se mostrou viajante incansável, tendo morado em vários países. Além disso, buscou sempre fazer-se presente onde as coisas aconteciam, ou poderiam acontecer. Esteve na guerra civil na Espanha, foi feito prisioneiro durante a 2ª Guerra Mundial, escapou e assistiu à Liberação de Paris. Registrou, com terror, a caça aos colaboracionistas. Estava na Índia quando Gandhi foi assassinado e foi dos últimos a vê-lo com vida. Em contato com o inesperado da experiência, era insuperável na escolha daquele momento único no qual o obturador deve ser disparado para captar uma imensidão de vida em uma fração dela. Toda a arte da fotografia está na escolha desse momento, que HCB definiu como o "instante decisivo". Por isso, um dos seus personagens, Sartre, pôde defini-lo como "o homem que fotografou a eternidade".
Em tempo: o próprio Henri Cartier-Bresson odiava ser fotografado. Só deixou sua imagem ser captada em raras e especiais ocasiões.

Texto: Luiz Zanin Oricchio - O Estadao de S.Paulo